Neivaldo Araújo: Manuel, o audaz!

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Entre as diversas canções deixadas pelo falecido letrista Fernando Brant, considero uma especial: Manuel, o Audaz. Como a maioria das canções do Clube da Esquina, é uma música que fala de coisas simples, do cotidiano dos seus membros, sendo Manuel Audaz o nome carinhoso dado ao Jeep Land Lover modelo 51 que pertencia a Fernando. Tal título certa vez foi chamado de estranho pelo ex-apresentador do Fantástico, Cid Moreira.

Do veículo criaram-se muitas histórias – a grande maioria, lendas – como, por exemplo, que o veículo costumava descer sozinho as ladeiras de Belo Horizonte. Verdade ou não, certeza que o Jeep amarelou inúmeras vezes, como diz a letra da canção, viajou em estradas de terra batida, conduzindo o grupo ao interior de Minas, em busca de inspiração nas cidades históricas e montanhas mineiras, de onde nasceram várias canções.

Fernando Brant tinha como seu parceiro constante Milton Nascimento. Juntos escreveram diversos sucessos como Travessia (a primeira canção da dupla), Canção da América, Nos Bailes da Vida, San Vicente, entre outros. Porém, quem fez a melodia para a música foi o guitarrista Toninho Horta, também membro do Clube da Esquina. Já vi diversos blogs na internet citando como gravação original da canção o registro do LP de Toninho Horta lançado em 1980. Essa versão foi gravada em dueto com Lô Borges, e termina com um longo e maravilhoso solo de Toninho Horta.

Porém, esta não foi a gravação original. A primeira versão que conheço da canção é de 1973, lançada em disco coletivo. Além de Toninho Horta, no disco também está presente Beto Guedes que, assim como Toninho, era um estreante em discos (e futuro astro do movimento Clube da Esquina); o pernambucano Novelli, que seguiu carreira como musico de estúdio e Danilo Caymmi – o caçula do mestre Dorival. A gravação é bem intimista se comparada com a versão lançada em 1980, que além de ser a primeira versão que eu conheço, também é minha favorita. Na época do vinil, esse disco era uma raridade, talvez por isso essa versão seja pouco conhecida.

A canção foi gravada em 1981 pela cantora paraense Jane Duboc, que na época estava iniciando sua carreira. O próprio Toninho Horta voltaria a gravar a canção outras vezes. Destas versões, merece destaque a gravação do LP Moonstone lançado em 1989, quase no fim da era do vinil, registrada com o título Eternal Youth (Toninho lança muitos álbuns no mercado estrangeiro) de maneira instrumental. A beleza da gravação consegue superar a ausência da bela letra de Fernando Brant. A música pode ser encontrada também em diversas coletâneas lançadas em tributo ao Clube da Esquina.

Na década de 90, com produção de Nestor Sant’anna e com roteiro do próprio Fernando Brant, foi encenado o espetáculo Manuel, o Audaz. Eram quarenta pessoas e duas pessoas diretamente envolvidas na produção e o período de preparação durou dez meses. No palco, um elenco de 17 cantores, atores e dançarinos contavam a história do Jeep que conduzia pelas estradas de Minas jovens músicos e poetas sufocados pelas restrições de um tempo sem liberdade. As cenas eram costuradas por belíssimos textos de Fernando e o espetáculo resultou no CD Fernando Brant 30 Anos de Travessia. No disco, a música Manuel, o Audaz é interpretada por Tadeu Franco.


Por Neilvado Araújo

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