Fantastic Negrito: trazendo o Blues para a modernidade

“Foda-se o estrelato! Foda-se o medo!”

FN_2Fantastic Negrito é a encarnação de um músico que renasceu depois de passar por um monte de merda. De fato, o nome adotado pelo artista pretende representar seu terceiro renascimento, pois o artista está voltando da morte neste exato momento. Falar desse cara é tão importante quanto falar do seu som, porque a narrativa é a sua música. Música, aliás, oriunda de uma vida difícil, canalizada das suas raízes negras: urgente, dramática, nervosa. Fantastic Negrito conta a história de um homem que lutou para “ser”, a despeito de “quem ganhou” e “quem perdeu”. Para quem chegou ao fundo e achava que não sairia, esta é a sua música: blues reciclado, forjado em realidade. Canções singulares de um artista autêntico que escreve e produz.

FN_5A PRIMEIRA VIDA (“quem é e para onde vai?”): Fantastic Negrito Negrito foi criado em um lar muçulmano ortodoxo. Seu pai era um imigrante somali-caribenho que tocava principalmente música tradicional africana. Quando, aos 12 anos, a sua família se mudou de Massachusetts para Oakland, ele sofreu um forte baque causado pelo choque cultural intenso. Oakland na década de 1970 foi a milhares de milhas da sua infância conservadora. Ele transitava entre cantos árabes e Funkadelic em um dia, vivendo no coração de uma das comunidades negras mais selvagens, mais infames e mais vibrantes do país. A merda era grande em Oakland.

FN_6Quando tinha 20 anos, Negrito aprendeu sozinho a tocar todos os instrumentos em que pudesse colocar as mãos. Ele estava fazendo música, mas também fez muitas merdas na rua e foi pego por isso. Isto durou vários anos até um encontro quase mortal com pistoleiros mascarados. Depois disso, arrumou suas malas e foi para Los Angeles, armado com uma demo em fita cassete.

FN_10A SEGUNDA VIDA (“Queria ser uma estrela … Ele achava”): não demorou muito para se encontrar entrincheirado no estilo “Hollywood” de vida ; “Clubes fuleiros e política de tolos que não têm nada a ver com boa música.” Finalmente assinou [contrato] com um grande empresário e, em seguida, conseguiu um acordo de um milhão de dólares com a Interscope (gravadora norte-americana do grupo Universal Music)… Todavia, logo depois, uma morte criativa.

FN_1O contrato de gravação foi um desastre. O Gangsta Rap dominava as ondas do rádio e Negrito se viu no lugar errado e na era errada. Dessa forma, acabou saindo do acordo com um álbum fracassado e sua confiança abalada. Ele estava infectado pela febre de “o que venderia”, “o que atrairia uma audiência rápida”. Confuso, ele perdeu o sentido de si. Sem qualquer inspiração, ele se demitiu. Então abriu mão de tudo o que havia conquistado e desistiu.

FN_7Em 2000, Negrito sofreu um acidente de carro quase fatal que o colocou em coma. Permaneceu parado por quatro semanas. Ficou com os músculos atrofiados enquanto esteve acamado e, frustrado, teve que passar por meses de fisioterapia para recuperar o movimento de suas pernas. Pinos de aço foram colocados por todo o seu corpo. E o pior de tudo, a mão com a qual tocava foi mutilada. Embora ele tenha se dedicado intensamente para se recuperar por vários anos, o dano foi permanente. Em 2008, ele voltou para casa em Oakland.

FN_9_2015A TERCEIRA VIDA (o (re)nascimento de Negrito): de volta a Oakland, esqueceu a sua vida como músico. Casou-se, plantou legumes, criou galinhas e ganhou algum dinheiro cultivando “ervas daninhas”. Ele conseguiu estabelecer-se dignamente e por conta própria, livre das distrações de querer ser uma estrela pop. Foi quando amadureceu seu ponto de vista sobre o mundo e isso o permitiu ter um foco. Seus valores muçulmanos conservadores fundiram-se com o mundo liberal e multicultural de Oakland. O cinismo do cotidiano cedeu espaço para a esperança que veio através da sua habilidade de enganar a morte. Agora, ele realmente sabia quem era. Ele estava confiante de seu lugar no mundo porque entendia isso tanto quanto deveria. Justamente ali, seu filho Kyu nasceu.

FN_10_2016Com a chegada de Kyu, toda a sua energia criativa, suprimida durante anos veio à tona. Suas escolhas musicais estavam afiadas, sem dúvida. Ele começou a gravar sem os obstáculos que se manifestavam com as manias de perseguição. “Fodam-se as modas!”, “O que é que me move?” Negrito virou-se para o DNA original de toda a música americana, o Blues. A vida difícil dera a ele o que necessitava para canalizar a energia de seus antepassados ​​literais e musicais: os músicos de blues do Delta.

FN_11_2018Para Negrito não havia essa de compor por derivação, então, para garantir que seu som fosse somente seu, buscou cada acorde num lugar diferente. Imediatamente abriram-se as portas da sua percepção. O instinto é uma ferramenta de Deus para transformar homens comuns em artista. Negrito deixa intacto os sons originais de Lead Belly e Skip Woods e constrói pontes para a modernidade, fazendo loops e experimentando seus próprios instrumentos ao vivo.

Ao ouvir sua música, somos convidados a ouvir a história de uma vida que renasceu após ser despedaçada. O sonho pode morrer e podemos até desistir, mas a partir daí, poderemos, tal qual Negrito, também recomeçar.

O álbum Please Don’t Be Dead foi lançado em 22 de Junho de 2018, e The Duffler, é a primeira música de trabalho deste disco. Confira o vídeo:


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