Mastodon – Parte 5: Crack The Skye

Parte 4: Blood Montain

“Mais progressivo, mais pesado, mais místico.”

O rock progressivo nem sempre foi um dos meus gêneros musicais favoritos. Porém, não há como negar que o nível de arte que compõe este gênero é simplesmente incomparável. O ambiente hipnótico criado pelos instrumentos e, claro, as longas viagens musicais levadas a cabo constituem uma experiência pra lá de sensorial. Os artistas criam um novo mundo, um refúgio musical que nos leva a reinos abstratos de musicalidade. É como se os músicos desenvolvessem uma relação pessoal com os seus instrumentos e estes lhes permitissem extrair de si o som que habita suas entranhas e é como se isso pudesse ser traduzido em forma de música. O som do rock progressivo é, na maioria das vezes, complexo e muito delicado, e isso se dá em virtude de tratar-se de um elemento subjetivo, ao qual o músico deve estar em estado de fluxo para poder acessar. A música consome o ouvinte dentro de um espectro de sons palpáveis capazes de seduzir-nos através de uma arte estranha e esplendorosa. Durante os anos 80, uma infinidade de bandas de Heavy Metal começou a fundir o som abrasivo do Metal com a natureza inovadora do Rock Progressivo. Foi uma convergência natural, para dizer o mínimo, que gerou uma série de possibilidades para ambos os gêneros.

Os primeiros álbuns do Mastodon sempre foram conhecidos por seu som agressivo, cada música continha uma entrega poderosa com uma ferocidade tão intensa que, embora, agressiva, havia sempre partes mais abstratas em sua música. Canções como “Elephant Man” do álbum Remission e “Hearts Alive” do Leviathan, mostram a crescente apreciação da banda pela dinâmica da música progressiva. Com uma tendência especial para as passagens instrumentais longas e imaginativas. Seu terceiro álbum, Blood Mountain, foi um grande período de transição musical para a banda. Foi nele que pudemos vê-los se afastando dos sons mais agressivos dos álbuns anteriores e assimilando uma forma mais experimental de compor pela incorporação eminente de elementos mais  ambientais a sua música.

Só pra situar, neste ano (2009) bandas como Slayer (World Painted Blood), Heaven And Hell (The Devil You Know) e Dream Theater (Black Clouds & Silver Linings), entre outros, lançaram discos considerados importantes para os fãs.

Crack The Skye, que representa o elemento “Éter”, é o álbum em que o Mastodon parece mergulhar mais profundamente nas suas influências progressivas. Há uma sombra que aparece ao longo deste álbum, fortalecend os tons e dando contornos ao seu conteúdo denso e quebrado. Este álbum nos põe numa história nova, surpreendente e rica em misticismo. Trata-se de viagens insólitas por reinos espirituais estranhos e misteriosos. Oblivion, o carro-chefe, abre com um arranjo de guitarra ambiente que descamba para um som mais “sludge”, que remete e aprimora o som de Blood Mountain. As letras de “Oblivion” funcionam como epílogo para a história conceitual por trás do álbum. O narrador está descrevendo sua própria morte à medida que ele lentamente perde a consciência e desce para as dimensões desconhecidas da vida após a morte, que é representada pelos instrumentos à medida que eles desaparecem no silêncio. Embora a história comece falando de morte, descobriremos que o assunto é sobre renascimento. Em “Divinations” e “Quintessence”, vemos que a música passa a ser mais agressiva, refletindo o tumulto em que o narrador se meteu. Descobrimos que o narrador torna-se um espírito consciente flutuando nos reinos misteriosos do Limbo. Ele é então levado ao mundo consciente através de um ritual místico, mas apenas para encontrar uma infinidade de obstáculos que o aguardam nessa aventura ontológica.

E agora descemos para uma atmosfera mais assustadora, decorada com sons cósmicos. O Czar abre com um aviso sinistro. Através da transcendência mística, o protagonista se encontra no meio da revolução russa. Sua alma agora possuía o corpo físico do conselheiro espiritual da família real czarista, Grigori Rasputin. “O Czar” é o aviso de Rasputin para a família real dos horríveis acontecimentos que irremediavelmente os aguardam. Ghost Of Karelia e The Last Baron parecem servir de reflexos enigmáticos da guerra entre os partidários do Czar e o novo exército rebelde que levaria a Rússia a uma sociedade comunista. O gran finale parece ser narrado pelo Czar, que viu agora que seu exército falhou, e temendo a morte, tenta um acordo com vistas a salvar-se e a sua família. Não obstante, logo será conduzido para o abismo do esquecimento.

O álbum consegue surpreender quanto a riqueza de elementos. Todavia, quanto a parte instrumental, vemos uma banda mais contida. Daí, compreendemos que este álbum não é sobre batidas fortes e música agressiva. O conceito do álbum envolve um exercício de percepção no qual a música enfatiza os ambientes sombrios que refletem a melancolia que reveste toda a história. A “morte” parece está presente em todas as faixas, especialmente na faixa-título – música que consiste em uma homenagem à irmã do baterista, Brann Dailor, que tragicamente se suicidou. Esta música, não se encaixa totalmente no conceito “czarista-místico” que se faz presente no total das músicas, mas no geral reflete o tema central e a experiência do estado consciente de morte que, por sua vez, constitui a base conceitual da história contada.

Por fim, na maioria das vezes, encontramos o som característico do Mastodon nos álbuns mais antigos, inclusive, no álbum anterior. Músicas como “Divinations” e “Crack The Skye” são o reflexo das raízes mais agressivas da banda. O elemento progressivo é bastante sutil na maioria das músicas. Todas elas contêm elementos atmosféricos que delimitam a psicodelia que evidentemente torna as músicas mais suaves, mas é mais proeminente nas faixas mais longas. “The Czar” and “The Last Baron” compartilham uma estética similar na estrutura. Ambas são músicas longas e complexas, mas diferem no som. “The Czar” é muito mais melódica e sinistra; “The Last Baron”, é muito mais versátil em humor e sonoridade, apresentando estruturas musicais, que vão desde ambientes delicados a passagens mais conturque traz Dream Theater a mente em alguns momentos. O fator comum em ambas é que, apesar de serem longas, elas não contêm as passagens instrumentais típica do rock progressivo. Quanto ao vocal, considerando que abandonaram de  vez o gutural, parece natural que a experiência auditiva seja mais “agradável” para a maioria dos fãs. Contudo, é difícil dizer como estes fãs percebem esse álbum.


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